segunda-feira, 19 de junho de 2017

deixei de ser poeta aos dezesseis
quando arrumei um namoradinho poeta

poeta de merda, poeta porque sim
poeta porque se chamava Poeta e tinha uma namorada bonita

musa, poeta com sua musa
musa tava bom aos dezesseis
eu achei

e guardei minhas canetas meus cadernos
posei

dez anos depois
dez anos se passaram
dez anos de pose, os músculos flácidos, as rugas no rosto onde marca o sorriso
falso
mimético
dele

"olhe pra dentro", eles dizem "você vai se encontrar"
olho as unhas sujas jogadas no ventre dolorido
diarreia, cólica a fúria dos infernos embolada na garganta

olho as pernas tortas
mais de quarenta cicatrizes, eu contei

narram a história da musa enfeiecida
mais uma musa falida antes dos trinta

obsoleta

"olhe para dentro" eles dizem "é onde sua verdade está"
minha verdade está na candidíase e nas 6 unhas dos pés pintadas de roxo
minha verdade está na vontade de morrer

minha verdade está na inveja sincera da autoestima dos medíocres

 
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